A existência de uma planta depende de sua sobrevivência e de sua capacidade de se reproduzir. Mas o que determina se uma planta vai viver e produzir boas sementes? As condições do ambiente são fundamentais. Sem nutrientes, água e luz, qualquer planta certamente morreria. Porém, além das condições do ambiente, as relações das plantas com outros organismos também são essenciais para sua existência, sendo comum encontrarmos na natureza interações planta-planta e interações planta-animal. E como outras plantas ou animais podem afetar a existência de uma planta? Essas relações se dão através de várias formas e podem ser boas ou ruins para uma planta.
Como as plantas são organismos sésseis (não se movem) e, portanto, não podem buscar outros ambientes para explorar recursos, não é difícil imaginar que quanto maior o número de plantas em uma área, maior a chance de que elas interajam entre si. E quantas plantas uma determinada área pode abrigar? Uma área é capaz de abrigar uma quantidade limitada de plantas, seja pela quantidade de recursos naturais disponível nessa área ou pelo próprio espaço disponível.
Quando os recursos dos quais as plantas necessitam não estão disponíveis em quantidade suficiente para que todas as plantas possam usar, ou seja, quando eles estão em quantidades limitadas no ambiente, o que poderá acontecer com as plantas? Todas elas conseguirão sobreviver? Com a pouca disponibilidade de um desses recursos poderá começar uma verdadeira disputa entre as plantas, uma espécie de luta para se estabelecer nesse local! Essa ‘disputa’ é denominada na área da Ecologia de competição.
A competição é uma interação negativa entre plantas, muito descrita na literatura, na qual a presença de uma planta atrapalha de alguma maneira o desempenho (o crescimento e/ou a produção de sementes) de outras. Ela pode ocorrer entre indivíduos da mesma espécie (competição intraespecífica) e entre indivíduos de diferentes espécies (competição interespecífica) e é considerada negativa porque todas as plantas envolvidas nessa interação serão afetadas em alguma fase do seu desenvolvimento. Mas, se todas as plantas competirem pelos poucos recursos existentes, todas elas serão igualmente prejudicadas? Na verdade, não. Umas poderão ser mais prejudicadas do que outras. Cada espécie de planta necessita de quantidades diferentes de recursos e isso pode favorecer a permanência delas no ambiente ou não. Algumas conseguem ter um bom desempenho utilizando uma pequena quantidade de recurso, enquanto outras só conseguem sobreviver absorvendo grandes quantidades desse mesmo recurso. Sendo assim, se elas não conseguirem obter o mínimo necessário para sua sobrevivência podem ter seu desenvolvimento bastante afetado ou até mesmo morrer.
Mas será que as plantas só se prejudicam entre si? Não, nas últimas décadas, ecólogos vêm estudando a importância das interações positivas entre as plantas na “construção” das comunidades – em várias situações a presença de um vizinho pode ajudar o desempenho das plantas e essa interação é denominada facilitação. Mas em que aspectos a presença de um vizinho pode facilitar a existência de outros? A presença de uma planta pode melhorar o crescimento, sobrevivência ou reprodução de uma planta vizinha. Vale lembrar que a planta facilitadora não tem intenção de ajudar outra planta e essa ajuda ocorre simplesmente por causa dos efeitos da facilitadora sobre o ambiente que outras plantas podem utilizar. Mas, quais efeitos positivos são esses? As plantas podem, por exemplo, proteger umas às outras dos impactos de herbívoros, de competidores potenciais ou de condições climáticas severas e/ou, ainda, adicionar recursos no sistema.
Vamos nos transportar para um deserto. Imagine que você é uma planta crescendo debaixo de um sol forte e sobre a areia e essas duas condições combinadas geram uma enorme escassez de água. Agora, imagine outra planta que, por ser maior, acaba fazendo uma sombrinha sobre você e ameniza os efeitos negativos das condições desse deserto. Esse tipo de facilitação é comum e essas plantas facilitadoras são chamadas de “plantas-berçário”, porque permitem a existência de outras plantas que não seriam capazes de aguentar as condições do ambiente na ausência dessa facilitadora. No entanto, o deserto é um ambiente bem diferente dos que existem aqui no Brasil, não é mesmo? Será que as relações de facilitação ocorrem, por exemplo, nas ricas florestas de Mata Atlântica? Acredita-se que a facilitação entre plantas é mais importante que a competição em ambientes com condições severas, como é o caso do deserto, por exemplo, mas que em condições menos extremas as relações de competição tendem a ser mais importantes. Isso não quer dizer, entretanto, que as plantas não facilitam umas às outras em ambientes menos severos, mas simplesmente que outros efeitos das plantas, como uso e esgotamento de recursos, por exemplo, acabam interferindo mais, determinando as espécies que farão parte da comunidade.
Em nossas florestas pode ser que algumas plantas forneçam recursos adicionais a outras, através da decomposição de suas folhas, através de redes de microrganismos, que aumentam a absorção de recursos, compartilhados entre as raízes e, até, através da redistribuição de água no solo. Um caso clássico de facilitação em florestas é o processo de sucessão. A presença de plantas capazes de germinar e crescer no sol, denominadas pioneiras, permite que plantas intolerantes ao sol agora se desenvolvam na sombra fornecida pela pioneira. E nos ecossistemas de restinga, como será que uma planta pode facilitar outra? Na vegetação do escrube, aquela vegetação que ocorre bem perto do mar que lembra um jardim com árvores anãs e muitas herbáceas, algumas plantas podem ter um efeito de planta-berçário sobre outras amenizando a alta incidência de sol, por exemplo. Já na floresta de restinga, que apesar de mais rica possui uma quantidade limitada de nutrientes por causa do solo arenoso, algumas espécies podem beneficiar outras aumentando a quantidade de nutrientes disponíveis. Algumas espécies da família das leguminosas, por exemplo, possuem a capacidade de se associar com microrganismos no solo obtendo maior quantidade de nitrogênio, um nutriente fundamental para todos os seres vivos. Mas vocês se lembram que as plantas não interagem apenas com outras plantas, não é? As plantas, além de interagirem entre si, também mantêm relações complexas de existência com os animais. A diversidade de interações existentes na natureza é imensa, mas ainda conhecemos muito pouco sobre elas. Para se ter uma idéia, é só pensarmos que ainda existem milhares de espécies de animais e plantas desconhecidas… Imagine então a quantidade de interações que podem ser estabelecidas entre essas espécies desconhecidas ou mesmo entre as espécies que já conhecemos! O que sabemos até agora? Uma coisa certa na Ecologia é que as interações planta-animal são as maiores fontes de geração da diversidade biológica global atualmente conhecida, já que animais e plantas podem se relacionar de muitas maneiras diferentes, dependendo de quando, como ou onde essas interações acontecem. Mas quem ganha com essas interações: as plantas ou os animais? Em alguns casos ganham os animais, em outros, as plantas, e pode haver custos e benefícios para ambas as partes. Para facilitar seu estudo, as interações são definidas com base nos tipos de impactos que causam para os agentes envolvidos.
Quando as relações beneficiam ambos os envolvidos são classificadas como relações harmônicas ou positivas e quando o benefício é para apenas um deles, afetando negativamente o outro envolvido, as relações são chamadas desarmônicas ou negativas. Existem também as relações que são neutras para cada espécie interagindo. E por que ainda não conhecemos a maioria delas? Mesmo sendo comum na natureza a ocorrência de interações vantajosas para as espécies envolvidas, como é o caso da polinização e da dispersão de sementes, as relações desarmônicas, como a herbivoria pela ação das formigas cortadeiras, por exemplo, são as mais lembradas pelas pessoas, provavelmente devido aos danos econômicos causados a agricultura. Mas os herbívoros são mesmo tão prejudiciais às plantas? Nem sempre os herbívoros são maléficos, ainda mais se pensarmos que uma das causas de existirem várias espécies de plantas diferentes sobrevivendo no mesmo local se deve justamente ao fato de os herbívoros se alimentarem das mais numerosas, evitando que estas aumentem tanto em número a ponto de excluir as menos numerosas. Ou seja, a grande biodiversidade de plantas conhecida nos trópicos também está relacionada com a ação dos herbívoros que se alimentam delas.
E todas as espécies envolvidas nas interações vão atuar sempre da mesma forma ou podem agir ora como espécies maléficas ora como benéficas? Na verdade, na natureza, mesmo que na maioria das vezes os animais “ganhem” das plantas nas interações que estabelecem, nem sempre uma espécie considerada maléfica vai ser sempre maléfica em qualquer relação que estabeleça com uma planta. Por exemplo, nem sempre abelhas polinizam as plantas de onde retiram o néctar como esperado, ou ainda, algumas espécies de formigas, ao invés de agirem como pragas em plantações, podem ser essenciais para a defesa de uma espécie de planta, como acontece com as formigas que protegem as embaúbas (Cecropia brachystachya) de outros insetos que atuam como herbívoros da espécie. Uma espécie de animal também não vai necessariamente se relacionar exclusivamente com a mesma espécie de planta. O que temos observado nos trópicos é que cada cenário é único nas interações planta-animal e ainda não encontramos padrões gerais que se repitam em todos os ambientes o tempo todo.
E como nós sabemos se um animal ou uma planta está ajudando ou atrapalhando outra planta? Uma das maneiras de respondermos esta questão é através de experimentos ou observações em campo em que avaliamos o desenvolvimento da planta com e sem a presença do organismo (animal ou planta) de interesse. Imagine que queremos saber se a presença de uma ave é boa ou ruim para uma espécie de árvore. Então podemos acompanhar o crescimento e o número de sementes produzidas desta árvore em duas situações: (a) em um ambiente em que a ave está presente e (b) em outro em que a ave não existe. Essas duas situações podem acorrer naturalmente ou nós podemos criá-las artificialmente. Se a presença da ave ajuda a planta de alguma forma é esperado que a planta na situação (a) cresça mais e/ou produza mais sementes do que na situação (b). Mas se a ave de alguma forma atrapalha a desenvolvimento da planta o inverso seria esperado.
E qual é a importância de estudarmos as interações às quais as plantas estão sujeitas? Quando somos capazes de compreender como a sobrevivência e a capacidade de deixar descendentes de uma planta dependem de suas relações com outros organismos, também podemos entender como e porque algumas espécies de plantas existem em uns lugares e não em outros. Dessa forma, poderemos compreender e até prever como a perda de uma única espécie pode afetar outras. Além disso, há algumas aplicações práticas. Se conhecermos algumas relações entre espécies, podemos usar este conhecimento para acelerar a recuperação de uma área que foi intensamente perturbada. Por exemplo, se conhecemos uma espécie de planta que facilita outras podemos plantar preferencialmente esta espécie facilitadora, o que aumentará a chance de sucesso de nossa ação de recuperação. Da mesma forma, se soubermos que uma espécie de planta atrai uma espécie de inseto que também poliniza várias outras espécies de plantas, seria interessante incluí-la em um processo de recuperação. E assim por diante. No entanto, talvez a principal importância para os ecólogos de estudar as interações entre plantas e entre plantas e animais é tentar compreender os mecanismos envolvidos com a sua ocorrência e, consequentemente, entender como esses mecanismos interferem na manutenção da grande biodiversidade atualmente conhecida.